Brasil x Índia: oportunidades e desafios na exportação de software

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Ao caminhar pelas ruas caóticas de Bangalore, disputadas por vacas, transeuntes desatentos, ciclistas, motos, carros e rickshaws (triciclos motorizados de capota amarela que carregam passageiros pela cidade afora), é difícil crer que estamos no coração do maior centro de desenvolvimento offshore de software do mundo. Mas com a força de quem fatura 18 bilhões de dólares com softwares e serviços (dados da Frost&Sullivan), a Índia se coloca ao Brasil ao mesmo tempo como um exemplo de sucesso e uma barreira a ser transposta.

Não à toa, um dos grupos mais engajados no desenvolvimento de software offshore no Brasil adotou o nome de Brasscom, uma alusão ao poderoso grupo indiano Nasscom. Entre os analistas, o consenso é de que precisamos sim olhar para o além mar para entender o que deu certo na Índia, mas é preciso, não obstante, olhar para dentro da nossa casa e entender o que temos de melhor para poder competir com este gigante ou até mesmo cooperar com ele.

As razões para os sucesso da Índia como pólo exportador de serviços, processos de backoffice (BPO, do inglês Business Proccess Outsourcing) e software são amplamente discutidas – afinal, quem não quer a fórmula mágica para atrair tantos investimentos?

Do ponto de vista dos analistas brasileiros, o que explica a explosão da Índia como pólo de offshore são fatores como a língua inglesa, herança da colonização britânica, e a disposição do governo em incentivar a exportação de software. Os observadores brasileiros também apontam a vocação e a disposição dos indianos para trabalhar de acordo com processos padronizados de desenvolvimento como um diferencial, sem falar, é claro, dos custos reduzidos da mão de obra.

Outra explicação dos analistas é a que sugere que a qualificação de profissionais indianos no exterior e o seu ingresso em companhias norte-americanas, principalmente, e européias, teria aberto caminhos para a Índia no mercado internacional. Na visão dos indianos, nem os profissionais egressos do país nem o governo tiveram um papel tão fundamental no processo, que teria sido liderado por empresas pioneiras que apostaram no país e mostraram ao resto do mundo o potencial do profissional local.

Seja lá quais forem as razões que colocaram a Índia no mapa do offshore, a boa notícia para o Brasil é que o país pode chegar a um ponto de esgotamento na oferta de mão de obra, segundo aponta uma pesquisa realizada por encomenda da Nasscom. O estudo mostra que em 2010, o país terá um déficit de 500 mil profissionais em relação à demanda do mercado – mesmo com a previsão de que até lá o número de profissionais de tecnologia saltará dos atuais 1,6 milhão para 20 milhões.

Mesmo com uma população de 1,1 bilhão de habitantes, a Índia ainda possui uma alta concentração demográfica no campo – onde educação e mesmo o inglês não chegam. Se por um lado essa realidade se apresenta como um de desafio para os indianos, se configura como uma oportunidade para as demais nações.

“O mercado de offshore de software deve movimentar 110 bilhões de dólares em 2010. Se nos posicionarmos para responder por 5% deste total, algo como 5 bilhões de dólares, poderemos gerar 100 mil empregos diretos no Brasil”, projeta Ricardo Saur, diretor executivo da Brasscom. De acordo com ele, as exportações de software do Brasil não chegam a 1 bilhão de dólares.

Mas os analistas alertam: esta janela estará aberta não apenas para o Brasil, mas para quem quer que se posicione para disputá-la. “A China, certamente, levará uma grande parte deste mercado, pois os clientes buscarão países com altos contingentes populacionais, para não correr os riscos de aumentos de custo por conta de escassez de mão-de-obra. Mas temos outros concorrentes, como o Leste Europeu, as Filipinas e, na América Latina, o México”, opina Saur.

O que eles têm que nós não temos?

A primeira vantagem óbvia do profissional indiano é o domínio do inglês como segunda língua – embora tenha 18 línguas oficiais e 1.652 dialetos, o país tem a segunda maior população de indivíduos que falam inglês no mundo. “O fato de falar o inglês nativamente dá a eles um nível de compreensão maior”, aponta Mauro Peres, diretor de consultoria da IDC no Brasil.

Mesmo com a vantagem lingüística, os profissionais indianos são menos dispendiosos. “O custo por profissional é cerca de 40% menor que no Brasil”, observa Peres. O salário inicial de um profissional de TI indiano está na faixa de 500 dólares mensais o que na Índia, é bastante superior à média de salários fora da área de tecnologia.

Outra percepção entre os analistas brasileiros é a de que o governo indiano incentiva com maior eficiência e planejamento o setor de software e serviços. “Nunca seremos páreo para competir com eles, porque o governo indiano iniciou esse processo há 20 anos. Nosso governo nunca fez nada pelo setor, as empresas se viram praticamente sozinhas”, argumenta Cássio Dreyfuss, vice-presidente do Gartner no Brasil.

Embora a percepção no mercado indiano seja de que o governo não foi o propulsor do desenvolvimento da indústria de TI, há hoje uma contribuição para promover e facilitar os negócios no setor. “O governo apóia a indústria por meio de parques de software, isenção de impostos por prazos determinados e descontos nas contribuições sociais”, aponta Haritha Ramachandran, analista sênior da Frost&Sullivan na Índia.

Além disso, os indianos levam os métodos e processos mais a sério, na visão dos analistas. “É uma característica cultural, eles são mais afeitos a metodologias”, aponta Dreyfuss. “Os indianos são muito dedicados e comprometidos, como a maioria dos profissionais orientais”, concorda a vice-presidente de recursos humanos da IBM para a Índia, Pari Sadasivan.

O que nós temos que eles não têm?

Mas ser diferente também tem seu lado positivo. Os analistas – tanto brasileiros quanto indianos – concordam que inovação não é o ponto forte do desenvolvedor indiano. Por outro lado, a criatividade e a capacidade de improvisação estão no DNA do profissional tupiniquim. “Eles são ótimos em pegar uma idéia pronta e transformar em código. Mas nós temos uma vivência de negócios mais abrangente, somos capazes de realmente desenhar processos, entender a necessidade do cliente e trazer novas idéias”, argumenta Ricardo Saur, diretor executivo da Brasscom.

Graças a esses perfis complementares, empresas nacionais – como a Stefanini, associada à Brasscom – apostam em parcerias na Índia. “É perfeitamente possível separar as etapas de elaboração de um sistema e enviar cada uma das partes ao país mais competente”, defende Saur.

É exatamente este o conceito encampado pela IBM, com seus centros globais de serviços. Unidades posicionadas na China, na Índia, nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Japão e no Brasil colaboram com partes diferentes de soluções de alta performance em alta demanda, apenas para citar um dos muitos exemplos de colaboração global.

“Temos uma base de conhecimento que permite compartilhar, por exemplo, procedimentos de como resolvemos determinamos problemas. Se alguém tiver o mesmo problema no Brasil, poderá resolver com maior agilidade”, explica Sudhir Sasty, do Centro de Soluções SOA, da IBM Índia.

Os analistas argumentam ainda que, para competir neste segmento, o Brasil deve se aproveitar das suas habilidade e atacar alguns nichos específicos, como os de finanças e governo. “Temos o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), que formou excelentes profissionais nessa área, as experiências avançadas em online banking e o terceiro maior parque de ATMs do mundo”, observa Peres.

Outra vantagem competitiva é a localização geográfica. “O Brasil terá que se empenhar muito para brigar com as populações de países como Índia e China. Mas pode ter vantagens por estar em uma zona de horário de países como os Estados Unidos, tornando-se uma opção para quem busca o nearshore”, argumenta o analista da Frost&Sullivan.

Mas para isso são necessários ainda investimento na promoção do software brasileiro no exterior – o que passa pela certificação em padrões de qualidade, como o CMM –, e apoio do governo, na visão dos especialistas.

“As leis trabalhistas tornam o profissional de TI brasileiro muito caro para competir no mercado. Um incentivo a esse setor não significaria perda de arrecadação, porque hoje praticamente não se arrecada. Fomentando o setor o governo teria a possibilidade não só de gerar empregos, mas também de aumentar a receita recolhida”, argumenta Dreyfuss, do Gartner.

As políticas de qualificação de mão de obra também estão na pauta de ações necessárias para levar o Brasil à verdadeira condição de pólo de offshore. “Da mesma forma que no passado o governo formou torneiros para desenvolver a indústria, hoje precisamos formar trabalhadores da informação”, conclui Saur.

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